sábado, 16 de abril de 2011

Vida política ou vida circense?

MEIAS VERDADES OU MEIAS MENTIRAS?
Desde a apresentação do PEC IV a Bruxelas, todos ouvimos várias vezes destacados membros do PSD acusarem Sócrates de desrespeito pelas instituições do país e de não ter negociado com o PSD, o maior partido da oposição e aquele que, em princípio, teria que dar o seu acordo parlamentar às medidas, para que estas fossem aplicadas.

Eu continuo a pensar que desrespeitou o Parlamento. Mas o argumento de Passos Coelho foi o utilizado, em primeiro lugar, para a decisão que levaria à demissão do governo e à convocação de eleições antecipadas. Sabemos que, posteriormente, mais argumentos contraditórios foram avançados, mas a monumental ofensa do PSD à inaceitável arrogância governamental foi repetida até à exaustão.

Por isso o país deve ter ficado estupefacto, pelo menos eu fiquei, quando me apercebi de que Sócrates tinha tido uma reunião alongada com Passos Coelho, em que lhe tinha explicado as medidas que iria apresentar em Bruxelas no dia seguinte. Isto dito pelo próprio Passos Coelho na entrevista a Judite de Sousa.

E quando Pacheco Pereira revela na Quadratura do Círculo que, no dia a seguir à famosa reunião "relâmpago" entre Sócrates e Passos Coelho, todos os deputados do PSD receberam um sms ordenando-lhes que não fizessem declarações sobre o chamado PEC IV "para não prejudicar as negociações do governo com a União Europeia".

E acrescentou: "Toda a gente sabe isto". Parece-me deduzir-se daqui que tudo o que Passos Coelho até agora disse sobre a conversa sobre Sócrates é falso.

Não se tratou, como o próprio já admitiu, uma breve comunicação telefónica. A reunião não foi rápida. Passos Coelho tomou conhecimento detalhado do documento que consubstancia o PEC IV. Passos Coelho ponderou ao menos, num primeiro momento, deixar passar o PEC IV. Passos Coelho reconheceu a utilidade para o país do PEC IV, ao ponto de ter pedido contenção aos seus correlegionários para não comprometerem a sua viabilização.

Alguém acredita, nessas circunstâncias, que Passos Coelho não tenha trazido consigo da reunião uma cópia do documento?

É claro que, agora, a direita acha um disparate determo-nos em pormenores de forma, quando esses pormenores foram usados e abusados para insultar, mais uma vez, o governo como um todo e José Sócrates em particular.

Mas se ainda tínhamos alguma dúvida ficámos esclarecidos. A não aprovação do PEC IV, pelo PSD, prendeu-se pura e simplesmente com a resolução da luta interna pela liderança do PSD, obedeceu apenas ao calculismo irresponsável de quem precisa de alcançar o poder a todo o custo.


Tudo o que se vai sabendo do PSD e do seu mais recente líder aumenta o desconforto em relação a todo este processo. Ainda estou sem entender como é possível convidar alguém para ocupar o lugar de Presidente da Assembleia da República, quando este lugar é fruto de uma eleição pelos deputados. Será que Passos Coelho consegue adivinhar o sentido de voto dos deputados?

Têm-se multiplicado as comparações absurdas entre a propaganda nazi e a propaganda protagonizada pelo PS. Quem assim fala só pode ser de uma ignorância confrangedora e perigosa. Andamos vertiginosamente a reboque de campanhas de desinformação, que inundam todos os espaços noticiosos e mediáticos. Estamos em vésperas de um processo eleitoral cujos fundamentos são falsos. E, de vez em quando, aparecem notícias que nos espantam por serem tão contrárias à maré de críticas e certezas sobre a incompetência do governo, para já não falar do ataque pessoal à honorabilidade das pessoas.

Vivemos tempos confusos e perigosos. Mas talvez haja quem se surpreenda e perceba que as pessoas não são totalmente manipuláveis.


Este texto foi retirado do blog thoughtsonmealhada.

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